Durante toda a minha vida eu busquei ser uma pessoa melhor. Cometi muito erros, mas a maioria só prejudicou a mim mesmo. Lutei muito por pessoas que julgava valer a pena. Desisti de algumas. Minha ambição não era grande, eu trabalhava para pagar aluguel de onde eu morava com a minha filha, pagar a escola dela e o nosso plano de saúde. Nos anos 2000 eu pelo menos não me preocupava tanto com o preço dos alimentos, como acontece hoje em dia, com todo mundo com certeza, e não nos faltava nada. Enfim a minha causa era essa ter uma religião e sustentar minha filha. Ao longo do tempo minha filha cresceu e minhas causas foram se expandindo, primeiro meio ambiente, trabalhei muito na escola essa temática, inclusive com trabalhos práticos, depois política, comecei a compreender que tudo na nossa vida era decidido por ela e que eu não podia permanecer alheia. Meu campo de luta? As redes sociais. Mas sempre buscando novos saberes espirituais. Minha alma nunca estava saciada. Por fim o feminismo, diante de tudo que eu vivi era uma questão de lógica para mim, ser feminista. Passei a me questionar profundamente se eu realmente apoiava todas as causas feministas. E para que eu fizesse isso eu tive que questionar profundamente a origem das minhas crenças, mais do que isso, eu tive mesmo que questionar entendimentos que dava a impressão de já terem nascido comigo. Claro que nada disso foi movimentado dentro de mim do nada, uma série de acontecimentos envolvendo a minha filha vieram para expandir ainda mais minha compreensão da realidade que me circundava. Então, depois de uma longa discussão comigo mesma cheguei a conclusão que sim, eu apoiava todas as causas feministas. E assim como aconteceu com outras coisas na minha vida, quando eu chego em certo ponto que aquele assunto não tem mais nada a me agregar, eu deixo ele de lado. E assim foi também com as religiões pelas quais passei. Por uma questão de criação mesmo eu não consegui expandir uma característica da minha personalidade que aflorou na adolescência: uma atração irresistivel pela fantasia, coisas mágicas, exotericas. O universo infinito da espiritualidade e da espistemologia universal, as ciências ocultas que ninguém dá crédito, a não ser pessoas como eu. Com os mesmos anseios e inquietação pelas coisas que transcende o material. Tenho certeza que ao longo dos meus 37 anos devo ter espantado uma pessoa ou outra diante do meu desapego pelas coisas terrenas. Foi quando eu casei pela segunda vez que o desejo de possibilitar conforto aos nossos filhos ficou mais aflorado em mim. Mas nunca por mim. Sempre por elas, pelas pessoas que eu amo. Precisou eu entrar em conflito com essas mesmas pessoas para que eu entendesse o grito da minha alma para olhar para mim mesma. Com caridade, com complacência, sem cobranças, sem a pretensão da perfeição. Entendi que eu não aguentava mais me encaixar em determinados padrões para ser aceita e ainda assim não ser. Reconhecer que sempre haverá pessoas que me amarão pelo que sou e outras que me odiarão pelo mesmo motivo. Essa parte de ter pessoas que não gostavam de mim me doeu muito durante anos. Até eu aceitar que eu também não gosto de um monte de gente. Não desejo mal nenhum mas não gosto. Não sou a mulher mais linda, a melhor mãe, a esposa exemplar, e não menos importante a melhor amiga de ninguém. Primeiro porque eu nunca exigi exclusividade nas minhas amizades. Mas até das coisas que eu exigia, eu não recebi, o que tocou fundo no meu ego e me trouxe profundo sofrimento, e crescimento, e força. Não posso dizer que tenho perfeito entendimento da minha vida, de todos os porquês. E me sinto até feliz por isso. É nisso que reside a emoção de viver.
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